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05/03/2019 às 8h23
Gigantes chinesas de tecnologia estão mapeando suínos
Empresas usam reconhecimento facial e de voz para ajudar país, maior criador e consumidor de carne suína do mundo, a superar doença misteriosa
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Um banco de dados com a cara de todos os porcos chineses. Varreduras de voz detectam porcos com tosse. Robôs que fornecem apenas a quantidade necessária de ração para os suínos. Esta pode ser a fazenda de porcos do futuro na China. Pode soar esquisito, mas hoje, as gigantes chinesas de tecnologia estão usando reconhecimento de voz e de faces, bem como outras tecnologias avançadas, para proteger os porcos do país.
 
Neste ano do Porco no horóscopo chinês, muitos porcos estão morrendo no país devido a uma doença fatal. É algo que afeta diretamente a oferta de carne suína do país, um prato básico das famílias chinesas. Então, empresas como Alibaba e JD.com estão aplicando nos suínos as mesmas técnicas que usaram para transformar a vida local – e, obscuramente, que o governo do país usa para espionar seu próprio povo. O objetivo aqui, porém, é garantir que os porcos estejam plenamente saudáveis.
 
“Se eles não estão felizes nem comem bem, há casos em que se pode prever se o porco está doente”, disse Jackson He, diretor executivo da Yingzi Technology, uma pequena empresa com sede na cidade de Guangzhou, sul do país, que introduziu a visão de uma “fazenda de porcos do futuro” com tecnologias de reconhecimento facial e de voz.
 
Mistério. A doença não tem vacina ou cura conhecida. Pode espalhar-se através do contato entre animais ou através de produtos de porco infectados, o que significa que pode ficar à espreita durante meses em salsichas ou presuntos. Não afeta os seres humanos, mas eles podem carregá-lo. A China abateu quase 1 milhão de porcos, instalou barreiras e construiu cercas, sem sucesso.
 
Há muito em jogo. A China é o maior criador de suínos do mundo, com uma população atual de cerca de 400 milhões, e é o maior consumidor de carne suína. O produto é tão importante que o país tem sua própria reserva estratégica no caso de escassez. As empresas que apoiam a tecnologia dizem que podem ajudar os produtores a isolar portadores de doenças, reduzir o custo da ração, aumentar a fertilidade das porcas e reduzir as mortes não naturais.
 
O sistema da JD.com usa robôs para alimentar os suínos na quantidade exata de ração, dependendo do estágio de crescimento dos animais. A SmartAHC, uma empresa que usa inteligência artificial para monitorar estatísticas vitais de porcos e oferece serviços disponíveis comercialmente, conecta porcas com monitores portáteis que podem prever a época de ovulação.
 
Eles anunciam suas tecnologias como alternativa à marcação de orelhas de porco, uma prática que muitos produtores consideram cruel. As etiquetas - que são muito mais baratas - podem ser manipuladas por humanos ou cair se os porcos brigarem, apontam. A tecnologia facial do JD.com pode detectar se um porco está doente e tentar descobrir o motivo, disse uma porta-voz, Lu Yishan. Seu sistema iria então notificar o criador, que pode então prescrever o tratamento. A empresa disse que colocou o sistema em uso em uma fazenda na província de Hebei, no norte da China, que o criou com a Universidade Agrícola da China, em Pequim, e que ele está à venda para agricultores interessados.
 
Já a plataforma da Alibaba monitora a atividade dos suínos e permite que os produtores os rastreiem em tempo real, disse a empresa em um comunicado. Em seguida, seria prescrito um plano de exercícios para melhorar sua saúde. Seu vídeo de marketing mostra porcos correndo na floresta e brincando com uma bola. Segundo a Alibaba, o Tequ Group, uma grande produtora de suínos localizada na província de Sichuan, no sudoeste do país, usa a tecnologia. A Tequ não respondeu a um pedido de comentário. O reconhecimento facial do porco funciona da mesma forma que o reconhecimento facial humano, dizem as empresas.
 
Scanners e softwares captam pelos, focinho, olhos e ouvidos. Os recursos são mapeados. Os porcos não são todos iguais quando se sabe o que procurar, disseram eles. “É como um rosto humano: cada um é diferente dos outros”, disse He, da Yingzi.
 
Revolução. A revolução digital transformou a China em um lugar onde praticamente tudo – serviços financeiros, comida picante para entrega, manicure e limpeza de cães, para citar alguns – pode ser convocado a partir de um smartphone. O reconhecimento facial foi implantado em banheiros públicos para fornecer papel higiênico, em estações de trem para prender criminosos e em conjuntos habitacionais para abrir portas.
 
Esse incentivo em relação a porcos, porém, pode ter vindo cedo demais. "Eu gosto da ideia, gosto do conceito, mas é preciso mostrar que isso funciona", disse Dirk Pfeiffer, professor de epidemiologia veterinária da Universidade da Cidade de Hong Kong. “Se não funcionar, será contraproducente”. O reconhecimento facial não ajudará, a menos que a China tenha um banco de dados abrangente de rostos de porcos para rastrear seus movimentos, ressaltou. Além disso, o reconhecimento facial não ajuda “quando o animal está no matadouro e cortado em pedaços”. “Como então se conecta a cabeça ao resto da carcaça?”, perguntou Pfeiffer.
 
Muitos dos produtores de suínos da China também estão céticos.  "A não ser que seja uma fazenda de porcos em grande escala, haverá pouca utilidade nisso”, disse Wang Wenjun, um agricultor de 27 anos. A China está em fase de fechar e consolidar muitas de suas pequenas fazendas de porcos, responsabilizando-as por poluir o meio ambiente. Mas ainda existem 26 milhões de pequenas fazendas de suínos no país– metade do total de fazendas, de acordo com o Ministério da Agricultura local.

Fonte: The New York Times
 
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