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Brasil é pivô na Guerra do 5G

Disputa entre China e Estados Unidos pelo fornecimento da infraestrutura da nova tecnologia deve fazer do governo Bolsonaro ator decisivo

27/11/2019 às 08h37


Esqueça a Copa do Mundo de 2014. Ou a Olimpíada de 2016. O verdadeiro grande evento global que o País sediará neste século começou a ser jogado em Brasília. É uma espécie de superfinal do UFC da Nova Economia. De um lado a China. Do outro, os Estados Unidos. E apesar de nosso papel de coadjuvante no ambiente tecnológico mundial, agora seremos o ator decisivo. Porque a pancadaria das duas maiores potências do planeta pelo título de principal sponsor da infraestrutura da tecnologia 5G não permite neutralidade. E o Brasil, por seu mercado de 210 milhões de pessoas e potencial econômico, será estratégico. Para indisfarçado desespero do próprio presidente Jair Bolsonaro, que precisará escolher um dos oponentes dessa trama — que envolve intriga, prisões, ameaças, espionagem, bilhões de dólares e a supremacia mundial. Sem exagero, o que está em disputa é o título de Cinturão do Próximo Império.

Por isso o tema quase provocou pane no Planalto nesta semana. Jair Bolsonaro recebeu o CEO da Huawei no Brasil, Wei Yao. A empresa chinesa, maior provedora do mundo de equipamentos de telecomunicação (28% de share, segundo a consultoria Dell’Oro), é o pavor dos americanos. Na saída da reunião, o presidente brasileiro começou a perceber o peso do que estava em jogo. “Ele (Yao) apenas mostrou que quer o 5G”, afirmou.

Somente ali pareceu ter ocorrido a sinapse presidencial para o assunto. Tanto que em menos de 24 horas o desenho da licitação de frequências do 5G no País, prevista para o ano que vem e que estava com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Ministério das Comunicações, passou para o Conselho do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), diretamente vinculado ao Planalto. Mais 24 horas e o envolvimento de Bolsonaro já trazia outro tom, mais grave, como quem prevê uma escolha de Sofia à frente. “O que for melhor para o Brasil, tecnicamente e financeiramente, a gente embarca”, disse. Num prazo de 48 horas, o País saiu de “a Huawei quer o 5G” (segunda-feira), passou pela troca de quem conduzirá a licitação (terça-feira) e concluiu que a definição será tanto técnica quanto política (quarta-feira).

PARCERIA PRECOCE 

O problema é que o alinhamento visceral e precoce da política externa do governo Bolsonaro a Donald Trump fez o Brasil começar mal esse jogo junto aos chineses, sem nem suspeitar que a questão 5G se tornaria decisiva. Pior: que os asiáticos lideram. De acordo com o relatório The Geopolitics of 5G, do Eurasia Group, o país está na dianteira da Corrida Tecnológica da nova geração, com pelo menos cinco anos à frente dos demais. E a Huawei foi decisiva para colocar os chineses — insignificantes no desenvolvimento das redes 3G e 4G — num lugar de destaque. Depois deles vêm as gigantes Ericsson (Suécia) e Nokia (Finlândia). Um terceiro pelotão traz NEC (Japão), Qualcomm (EUA) e Samsung (Coreia do Sul). Para o governo americano, qualquer uma pode vencer a corrida. Desde que não seja a Huawei.

Na Guerra do 5G, os Estados Unidos adotaram quatro frentes de batalha. Numa ofensiva poucas vezes vista. A primeira foi pedir ao Canadá a prisão da principal executiva financeira da Huawei, Meng Wanzhou, sob acusação — negada por ela — de fraude para violar sanções impostas pelos americanos ao Irã. Detida em dezembro de 2018 em Vancouver, numa parada de viagem de Hong Kong ao México, está até hoje no país, em liberdade condicional depois de pagar fiança de US$ 7,5 milhões, e aguarda decisão sobre o pedido de extradição para os Estados Unidos. Meng não é apenas uma executiva de alto escalão. Trata-se da filha do CEO e fundador da Huawei, Ren Zhengfei.

A segunda ofensiva foi no campo diplomático. Sob a alegação de que a empresa asiática utiliza suas redes de telecomunicação também para espionar companhias e políticos ocidentais e compartilhar as informações com Pequim, o governo Trump pediu a aliados que vetassem contratar serviços de infraestrutura 5G da Huawei. Até agora somente quatro países obedeceram: Austrália, Nova Zelândia, Japão e Vietnã. Os dois primeiros, isoladamente, não pesam muito. Somados, têm população equivalente a 2/3 do Estado de São Paulo, ou a 80% da Polônia. O Vietnã, a despeito do acelerado crescimento, ainda tenta se firmar como economia ascendente e tem um PIB pouco superior ao do Peru. O player mais relevante do grupo é o Japão, histórico adversário da China. Mesmo aliados clássicos, como o Reino Unido, relutam em seguir o desejo de Trump. E a própria União Europeia, Alemanha à frente, já sinalizou que dificilmente poderá abrir mão da solução Huawei. Por motivos bem liberais: os chineses são melhores, mais baratos e estão entranhados no ecossistema de telecomunicações das operadoras europeias.

ESTRANGULAR 

A terceira frente, e mais agressiva, se deu no âmbito interno. Em maio, os Estados Unidos decidiram usar uma brecha legal sobre segurança nacional e impedir a Huawei de fazer negócios com empresas americanas. Além de líder mundial em sistemas de telecomunicação, a chinesa é vice-líder global na venda de smartphones. Seus celulares usam sistema Android, que é do Google, e chips de fornecedores do país. Seria uma maneira de tentar estrangular a empresa. As reações vieram até mesmo de outras companhias americanas que fazem parte da cadeia de suprimentos dos chineses – transações que geram receitas anuais na casa dos US$ 11 bilhões, uma dinheirama até para padrões americanos. Na quarta-feira 20 o secretário de Comércio, Wilbur Ross, disse que havia recebido 290 solicitações de corporações locais para obter permissão de negociar com a Huawei, e “várias” foram autorizadas.

A quarta linha de ataque foi noticiada pelo Financial Times em outubro. Os Estados Unidos, depois de tentarem envolver, sem sucesso, companhias nacionais para desenvolver soluções 5G, estudam a emissão de crédito para empresas como Ericsson e Nokia e assim permitir que elas ofereçam financiamentos generosos a seus clientes – as operadoras, que precisam de pesados investimentos para atuar no 5G.

Por seu lado, a China se concentra em duas frentes: preparo tecnológico e crédito aos potenciais países clientes. No primeiro item, Pequim permitiu a criação de megaempresas em setores estratégicos. Vale para a Huawei, em telecom, ou para a Didi, em mobilidade. Já o crédito abundante serve para financiar no exterior projetos que serão tocados por companhias chinesas. Ironicamente foi um modelo adotado pela política externa brasileira no governo Lula. Com uma diferença crucial. O pragmatismo dos asiáticos ignora até mesmo ofensas diplomáticas — desde que pequenas. Durante a campanha para presidente, Bolsonaro buscou um alinhamento imediato com os Estados Unidos e chegou a afirmar que a China “comprava o Brasil e não do Brasil”. Nas comemorações de 70 anos da Revolução Comunista na China, em outubro, ele afirmou que estava em um “país capitalista”.

As caneladas de Bolsonaro acertaram o maior — e melhor — parceiro comercial do Brasil. Entre janeiro e outubro foram exportados para a China US$ 51,5 bilhões, com saldo positivo brasileiro de US$ 21,4 bilhões. Os Estados Unidos são, é verdade, nosso segundo maior parceiro. Mas bem atrás. Para os americanos foram exportados US$ 24,2 bilhões, mas a balança comercial fica negativa em US$ 1,1 bilhão. Sozinha, a China é responsável por 27,8% de todas as exportações brasileiras de 2019 e por 61,4% de nosso saldo positivo na balança comercial. Um simples boicote chinês a qualquer segmento econômico pode estrangular o Brasil e fazer Paulo Guedes se tornar ex-ministro com a mesma rapidez que o 5G promete dar às conexões.

As inabilidades diplomáticas ou mesmo a forte pressão americana parecem não abalar a estratégia chinesa. George Zhao, presidente da Honor, divisão da Huawei, usa um ditado para revelar como o país pretende agir: “Não importa o que aconteça, não importam os desafios, apenas sorria e os supere.” Xi Jinping, o presidente chinês, apenas sorri. Levemente. E respondeu trazendo ao Brasil o que a política econômica de Guedes ainda não conseguiu: dinheiro farto para investimento. Em reunião do BRICS neste mês, os chineses reagiram à moda chinesa. Com US$ 100 bilhões para investir em infraestrutura — e 5G é infraestrutura. O encontro Bolsonaro-Huawei se deu no primeiro dia útil seguinte ao dinheiro ser colocado à mesa. Em uma década, segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os investimentos asiáticos por aqui foram de US$ 57 bilhões. Agora, de uma só vez, Xi acenou com uma montanha 75% maior. A única promessa feita por Trump a Bolsonaro foi a de brigar pela presença brasileira na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os EUA indicaram a Argentina. E o vizinho já caminhava para a eleição do desafeto de Bolsonaro, Alberto Fernández.

DECISÃO EM 2020 

Pode-se dizer, neste xadrez, que enquanto o governo americano pedia ao Brasil que não jogasse o 5G na mão dos chineses, a China ofereceu a solução e o dinheiro. E isso será decisivo, os chineses sabem, para criar uma aliança inimaginável para defender uma decisão à moda Huawei: as operadoras brasileiras de telecom. Sem exceção, as empresas que atuam no Brasil afirmam que investir no 5G exigirá um dinheiro que elas ainda não obtiveram como retorno dos investimentos feitos no 4G. Em resumo, seria melhor falar de 5G daqui a pouco e não já. Com o modelo de crédito abundante oferecido pela China essas companhias podem ter tirado um problema da sala. As outras duas grandes economias latino-americanas — México e Argentina — devem decidir até o começo de 2020 se vão permitir que a Huawei participe da infraestrutura 5G. No Brasil, o leilão previsto para o primeiro semestre do ano que vem foi adiado para o segundo e há gente que aposta que ele virá apenas em 2021.

Jair Bolsonaro, em pessoa, está com a bomba no colo para decidir se a tecnologia 5G no Brasil virá logo ou com atraso. E qual virá. Todos os segmentos econômicos nacionais dependerão dessa decisão para estarem competitivos. Local e globalmente. É essa a guerra. Com a Europa pendendo para a Huawei e o Brasil sendo a economia do porte que é – entre as dez maiores do planeta – a decisão daqui será um round decisivo sobre a hegemonia mundial na tecnologia. Quando os Estados Unidos decidiram adotar sanções contra a Huawei, em maio, o presidente Xi Jinping disse que “desde as Guerras do Ópio, a China foi derrotada por países com menos população, riqueza e recursos geográficos” porque possuía tecnologia inferior. Isso levou a dois ambiciosos planos — a Nova Rota da Seda, rede de infraestrutura com investimentos em mais de 150 países, e o Made in China 2025, para desenvolver áreas estratégicas, como a de Inteligência Artificial. Tecnologia é o novo elemento dorsal para se tornar um império. E vencer a grande guerra. Desta vez, a Normandia se chama Brasil.

O NOVO PETRÓLEO

Pense no 5G mais do que em uma tecnologia. Estaria mais para o novo petróleo. Por isso se tornou, de fato, instrumento da guerra que os EUA de Trump travam com a China. Não se trata apenas da evolução de redes anteriores. Está mais para disruptivo do que evolutivo. Downloads serão feitos até 100 vezes mais rapidamente. Além de permitir um número exponencial de conexões. De pessoas com máquinas, máquinas com pessoas e máquinas com máquinas. Permitirá a existência desde frotas de veículos autônomos a uma casa que aprende os hábitos de seus moradores para ligar e desligar aparelhos por Inteligência Artificial. Para se ter dimensão de como a China lida com tecnologia e petróleo basta dizer que o país importou em 2018 mais de US$ 300 bilhões em chips, a maior parte dos EUA, cruciais a qualquer produto digital. O valor supera o que foi gasto na importação de petróleo no mesmo ano.

Em 32 anos, uma gigante

Nascida em 1987, a Huawei tem 180 mil empregados e atua em 170 mercados, com faturamento de US$ 105 bilhões em 2018 (a Alphabet/Google fez US$ 136 bilhões no mesmo ano). A holding dona da empresa teria dois acionistas: Ren Zhengfei, o fundador e dono de pouco mais de 1% das ações, e o restante nas mãos de um sindicato de trabalhadores. Zhengfei é ex-oficial do Exército e ligado ao Partido Comunista, e essa proximidade ao governo, vista com desconfiança no Ocidente, foi decisiva para que Pequim tratasse a Huawei como uma das superempresas estratégicas à economia asiática.

Fonte: Isto É Dinheiro



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