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Auxílio Brasil tende a aumentar demanda por alimentos

Diante do aumento da fome no país, população em maior vulnerabilidade se voltará para o básico e que tem mais peso no orçamento doméstico

25/10/2021 às 09h04


Anunciado pelo governo federal como substituto do Bolsa Família, o Auxílio Brasil de R$ 400, que deve começar a ser pago em novembro, deve aumentar a demanda por alimentos. Ainda que o valor seja menor que o do auxílio emergencial, de R$ 600, pago no ano passado, o novo benefício, que substituirá o Programa Bolsa Família, tende a tornar produtos como arroz, feijão, carnes e açúcar mais presentes nos carrinhos de compra.
 
No cenário atual, de alta de preços e aumento da fome, a população em situação de insegurança alimentar e maior vulnerabilidade social deve se voltar para o que é básico e que, nas camadas mais pobres da sociedade, tem peso maior no orçamento.
 
De acordo com o relatório do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) referente a setembro, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o peso dos alimentos e bebidas no cálculo da inflaçao foi de 20,94%. Só no mês passado, a alta nesse grupo de produtos foi de 1,02%. No acumulado do ano, a elevação é de 5,84% e, no período de 12 meses encerrado em setembro, de 12,54%.
 
“Nesse momento, é preciso pensar em soluções para a fome. Esse auxílio demorou e é só um reajuste do Bolsa Família, que não tem aumento desde 2018”, diz Patricia Costa, economia do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
 
Ela avalia que a inflação dos alimentos não é fruto do aumento da demanda. E diz que, com dinheiro na mão, as pessoas conseguirão escolher o que comer. Recentemente, ganharam destaques cenas de pessoas fazendo filas para pegar ossos descartados por açougues, diante da impossibilidade de comprar carne para comer.
 
“O Brasil vive um processo de demanda reprimida. As pessoas têm fome, mas não podem comprar alimentos. O preço subiu porque o país está exportando mais, aproveitando a taxa de câmbio. Carne, arroz, feijão e açúcar tem seu preço estabelecido pelo câmbio e valor das commodities”, destaca.
 
Marcos Fava Neves, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), também acredita em maior procura por alimentos. Destaca ainda que as previsões apontam para uma nova safra agrícola recorde, o que deve reforçar a oferta no mercado.
 
“O auxílio vem em boa hora, pois o Brasil, se tudo correr bem, deve colher uma safra recorde próxima a 290 milhões de toneladas de grãos, o que ajudará a derrubar os preços dos alimentos e deixá-los mais à disposição dos consumidores”, diz Neves, para quem segmentos como carnes, leite e ovos podem viver uma situação melhor, na comparação com um cenário sem auxílio.
 
Inflação
 
Olhando a situação atual, o economista Mauro Rochlin, do MBA da Fundação Getúlio Vargas, não vê impacto maior do Auxílio Brasil sobre a inflação, que tem subido por uma série de fatores e levado o mercado a rever suas projeções em relação, por exemplo, à taxa de juros básica da economia, a Selic.“Vai haver uma demanda mais aquecida de alimentos e produtos básicos, mas não acredito em impacto maior sobre a inflação”, diz ele.
 
O gerente de mercado da Bolsa Brasileira de Mercadorias, Carlos Widonsck, pondera que a inflação não é exclusiva do Brasil, mas atinge o mundo todo. Deve-se, em boa parte, à crise energética, com aumento de preços de petróleo, carvão, gás e fretes. No Brasil, diz, a crise foi amplificada pelas condições climáticas que afetaram a safra 2020/2021.
 
“O dólar deve se manter em patamares altos e não vejo cenário para aumento ou queda significativa no preço dos alimentos, mesmo com a entrada de uma supersafra, já que os custos aumentaram. Minha estimativa é de preços altos em dezembro e janeiro e uma arrefecida lá para fevereiro e março”, diz ele.
 
Furo no teto
 
O ponto polêmico em relação ao Auxílio Brasil está no fato do programa, que dobrará o valor pago hoje com o Bolsa Família, ser bancado, em parte, com um furo no teto de gastos públicos. A situação provocou reações do mercado financeiro e uma debandada de parte da equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes.
 
O furo no teto deve ser da ordem de R$ 30 bilhões. Na sexta-feira (22/10), em pronunciamento ao lado do presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Economia justificou a decisão, dizendo que era preferível tirar uma nota 8 em vez de uma nota 10 em matéria de austeridade fiscal, mas ter margem de ajuda à população mais vulnerável.
 
Mauro Rochlin, da FGV, pontua apenas que o problema de furar o teto de gastos é que, além de pressionar de forma recorrente as despesas do governo, sinaliza um compromisso muito frouxo com a política de austeridade. De qualquer forma, ele acredita em uma situação inflacionária menos dramática em 2022, com um índice por volta de 5% em vez dos atuais quase 10%.
 
Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) também é crítico do estouro do teto. Em sua visão, o cenário inflacionário atual foi gerado justamente pelo aumento do gasto público, ainda que tenha sido necessário no ano passado para evitar uma retração maior da economia brasileira.
 
Segundo ele, medidas que aumentam o endividamento vão gerar um problema maior lá na frente. “Não que o auxílio não seja oportuno, justo ou necessário, mas responsabilidade fiscal é lei, não se discute”, diz. “Anunciar um programa como esse agora, sem recursos para pagar, tem resposta imediata. Quando as pessoas receberem os R$ 400, o poder de compra já estará em R$ 350”, acrescenta.



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